24 janeiro, 2017

Resenha: Machine Messiah - Sepultura (2017)

Falar do Sepultura é sempre uma conversa complicada. Inegavelmente a banda de Metal mais bem sucedida do Brasil, por ser dona de álbuns clássicos do Thrash Metal que influenciaram diversas bandas mundo a fora, o Sepultura hoje diverge bastante de seu passado. Machine Messiah, lançado na sexta-feira 13 que tivemos neste mês, é um trabalho que mostra uma nova face do Sepultura, que se permite inovar e somar inspirações diferentes para um resultado pesado e denso. Abordando um cenário onde o homem se torna dependente das máquinas, a banda tem uma performance excepcional em diversos quesitos, fazendo do álbum o mais maduro desta nova fase do grupo.




A proposta de mesclar ritmos brasileiros ao Thrash Metal fez do Sepultura o gigante que é hoje, permitindo inclusive que a banda re-inventasse seu som a cada disco em busca de um novo diferencial. Talvez nem sempre agradasse a maioria de seus seguidores, mas o guitarrista e mentor da banda Andreas Kisser não abandonou sua criatividade e trouxe pitadas de teclados sintetizadores, violinos e demais orquestrações para criar um novo plano de fundo para suas guitarras cada vez mais pesadas. 


Toda essa atmosfera re-trabalhada pode ser sentida logo na primeira música, aquela que leva o nome do álbum. Sombria, densa, muito bem esculpida por todos instrumentos, incluindo a voz de Derrick Green, que começa com um vocal limpo, trazendo no momento certo sua voz rasgada para os momentos mais pesados. A faixa tem uma cadência forte, mesmo quando os riffs não consistem em power chords. Também tem destaque o baixo de Paulo Jr., que apresenta um trabalho firme nesse disco, segurando os graves intensos da banda enquanto ocorrem grandes viagens entre os demais intrumentos. Já na faixa seguinte, temos a rápida "I Am The Enemy", que já vinha sendo apresentada ao vivo e é a mais curta do trabalho, com 2:27, apostando diretamente no Thrash consistente que a banda apresenta com sucesso.





"Phantom Self" foi lançada anteriormente como single do disco, e alcançou com sucesso o objetivo de trazer o conceito de novidade do novo álbum. Desde seu começo tipicamente brasileiro, mesclado com guitarras dobradas e sintetizadores, até os riffs realmente pesados e refrões carregados. A presença de violinos na ponte e em diversas passagens da música acrescenta bastante e tende a alavancar a música ao posto de maior composição do álbum, sendo bem usada como símbolo dessas novas ideias do Sepultura.


A faixa #4, "Alethea", não se destaca tanto, mas passa sem comprometer o disco. Diferente dela, a instrumental "Iceberg Dances" é impressionante em diversos momentos, abusando de criatividade dos instrumentistas do Sepultura e sinergia entre vários sons apresentados, que juntos resultam em uma trilha espetacular da banda. O que vem em seguida é simplesmente estonteante: "Sworn Oath". O vocal de Derrick transmite o sentimento que o peso dessa música pede. A orquestração faz uma base fantástica ao longo da música, trabalhando de forma intensa com a guitarra, que transmite uma sensação de imersão completa nessa obra impressionante, elevando a música a um patamar acima do que vinha sendo apresentado. Me arrisco dizer que é a melhor faixa que escuto do Sepultura em anos. Muitos poderão acusar a faixa de fugir das raízes da banda, mas talvez seja exatamente isso que a torne tão fantástica. Agora, se o ouvinte irá gostar ou não, não cabe a mim decidir, mas garanto que "Sworn Oath" chama atenção do começo ao fim.

Com a proposta já bem apresentada, ou o ouvinte gostou do que escutou e vai continuar ou detestou e desistiu do play. Se seguiu em frente, "Resistant Parasites" apresenta mais dessa mescla de grooves intensos com atmosferas criadas em cima de orquestrações. Andreas também apresenta riffs realmente dilacerantes e violentos. Sua guitarra mantém essa pegada agressiva em "Silent Violence", enquanto Derrick volta a apresentar nuances interessantes com sua voz.

Independente do que o ouvinte está achando do álbum, creio que seja difícil arranjar algum ponto a criticar em Eloy Casagrande. O baterista é um absurdo em cada faixa, matando a pau em todas as músicas e provando ainda mais que o Sepultura acertou em cheio em recrutar o rapaz para o posto. Independente se a música está acelerada ou mais cadenciada, se a guitarra está pegando pesado ou dedilhando notas, o cara vai estar dando um peso surreal com suas linhas.


"Vandals Nest" é mais uma curtinha do álbum, e mantém as doses de violência que o Sepultura exige. A banda soube equilibrar bem a track-list, alternando bem as faixas mais pesadas e agressivas com aquelas que resolveram arriscar com toques diferenciados. "Cyber God" encerra o álbum chamando atenção, principalmente com o vocal devastador de Derrick. O vocalista faz um trabalho que realmente me agrada na banda, e acho que nesse disco ele acertou em cheio nas suas linhas vocais. O americano sabe dosar bem guturais, urros que rasgam a cabeça ou até mesmo sua voz natural, sempre encaixando da maneira adequada com o que a guitarra de Andreas pede.




"Chosen Skins" é a primeira faixa bônus do disco. Andreas segue apresentando riffs demasiadamente agressivos e que assim como vários outros apresentados ao longo de Machine Messiah, irá motivar inúmeras rodas mundo a fora. Outra faixa extra foi "Ultraseven No Uta", tema de abertura do famigerado seriado japonês dos anos '60. Dispensável? Talvez. Engraçado? Com certeza. A homenagem que a banda prega ao seriado chega a soar estranho por não esperarmos algo assim, mas como se trata da última faixa bônus de um álbum muito bem elaborado, podemos levar com bom-humor e encarar como uma forma de encerrar os trabalhos sérios com uma dose de comédia.

A banda possui uma legião de fãs rigorosos, que esperam sempre um disco à altura de "Roots", e mas em sua maioria sempre se decepcionam. Na verdade, isso não vai voltar a acontecer, principalmente por não termos dois elementos fundamentais da composição da bomba que era o Sepultura dos anos 80/90. Max e Igor Cavalera forçaram a banda a se renovar com suas saídas ou a encerrar por ali. Andreas escolheu a primeira opção sempre que fora necessário e hoje temos esse ótimo disco chamado Machine Messiah, que caracteriza definitivamente um Sepultura multi-facetado e disposto a continuar apresentando coisas novas incessantemente. O "maestro" do Sepultura provou que ainda entende muito de Metal pesado e principalmente, de música. As mesclas apresentadas ao decorrer do disco mostram que o guitarrista sabe criar ótimos contrastes em meio a pancadaria sonora que tornou o Sepultura uma das maiores bandas de Metal do mundo.




Integrantes:
Derrick Green (vocal)
Andreas Kisser (guitarra)
Paulo Jr. (baixo)
Eloy Casagrande (bateria)

Faixas:
01. Machine Messiah
02. I Am the Enemy
03. Phantom Self
04. Alethea
05. Iceberg Dances
06. Sworn Oath
07. Resistant Parasites
08. Silent Violence
09. Vandals Nest
10. Cyber God
11. Chosen Skins [bonus]
12. Ultraseven No Uta [bonus]
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