23 fevereiro, 2017

Especial: O Lugar de Mulher #6

Juh Leidl é uma artista plástica de 40 anos, natural e residente em Campinas, São Paulo, Juh também é conhecida por ser vocalista da banda de Rock chamada Threesome que foi fundada em 2012.



Juh, obrigado pela disponibilidade. Conte-nos como entrou na música?
Juh Leidl: Na verdade não entrei mas nasci na música assim como nas artes plásticas. Meu pai era músico e ainda é artista plástico logo cresci num ambiente que transbordava arte pra todos os lados. Na época da faculdade comecei a cantar com trios de bossa nova e mpb, e fiz algumas participações em bandas multicover de rock pop nacional mas sempre muito informal. Quando o Fred Leidl resolveu montar uma banda de rock autoral em 2012 me chamou para fazer parte e aí sim posso dizer que a música tomou uma proporção mais séria em minha vida até mesmo me obrigando a estudar mais, aprender a tocar instrumentos pra ter maior compreensão de estrutura e teoria musical o que mesmo assumindo vocais faz toda a diferença além de aulas de canto para desenvolver impostação de voz e etc... sair da mpb pro rock anos 70 foi um desafio vocal. Temos um projeto em que acreditamos e nos dedicamos realmente. Cresci e continuo buscando crescer todos os dias como vocalista da Threesome. A música autoral traz desafios em uma gama muito mais profunda do que fazer cover. Antes eu precisava estudar para reproduzir algo hoje o desafio é “botar pra fora” e concretizar uma ideia pra que ela fique acessível ao público e é nesse ponto que começam os obstáculos da composição, do tom na interpretação de acordo com o que estamos querendo falar enfim tem exigido mais conhecimento e esse é um processo delicioso! Fico muito feliz em fazer parte disso! 

Para entendermos um pouco mais sobre você, quais são suas influências?
Juh Leidl: As influências são as mais ecléticas possíveis. Meu padrinho era filho de um cantor de lírico e convivi por muito e desde nova ouvindo música clássica e óperas em sua casa ao mesmo tempo em que ouvia o rock dos anos 70 com meu pai, dos anos 50 de Elvis aos clássicos da Motown com minha mãe e claro tudo que borbulhava na mpb. Meus discos favoritos iam de Bizet, Beethoven, Black Sabbath, The Who, Led Zeppelin, Genesis, Pink Floyd, Beatles, Rolling Stones, Tom Jobim, Ella Fitzgerald, Gonzaguinha, Jorge Ben, Chico, Caetano, Secos e Molhados, Mutantes, Rita Lee, Titãs... e logo tudo do universo dos anos 90 do grunge ao metal, música pop, reggae, música techno, jazz e acid jazz. Aqui acho que nem consigo listar porque são tantas! Ou seja minhas influências: absolutamente tudo que escuto e de alguma maneira me toca e me comove. Minha playlist hoje tem mais de 200 gigas dos mais diversos estilos, bandas antigas e atuais. Cada estilo e cada linguagem tem muito a ensinar, e gosto realmente de quase tudo.

Você é artista plástica, certo? Como é sua profissão e o que você mais gosta de fazer nos seus tempos livres?
Juh Leidl: Sim, sou artista plástica e assim como na música áreas ligadas a cultura no Brasil são sempre um exercício de persistência e muita, para entrar num mercado minúsculo e cheio de preconceitos. As galerias no Brasil em geral trabalham com dois nichos. Um, os artistas consagrados com valor de obra nas alturas e que movimentam o mercado de especulação e o outro obras muito baratas pra ganhar em volume. No caso dos consagrados é recomendável que você morra (brincadeira mas com fundo de verdade) mas fato, artistas falecidos tem os valores nas alturas e para os “baratinhos” isso é igual a pagar porcentagem de marchand, espaço da galeria, e ficar com nada praticamente. Não bastasse isso se você não tiver um bom curriculum de exposições fora do país provavelmente não irá ser recebido nas Galerias de melhor fluxo em São Paulo por exemplo. Em resumo, sou artista plástica não por escolha, mas porque não sei ser outra coisa que não artista, se eu parar de pintar ou cantar eu enlouqueço com total certeza. Quando falamos em artes plásticas como profissão temos que lidar com as dores e delícias do processo criativo, da execução, da aceitação e rejeição, da “exposição” da alma e ainda sobreviver no mercado. Meu foco nos últimos anos tem sido galerias e museus fora do Brasil e por enquanto tem funcionado muito melhor.
No meu tempo livre gosto de ler, assistir filmes e peças de teatro, velejar, aliás ler velejando mais ainda , cozinhar, viajar além de estudar coisas novas. Tenho fome de aprender o tempo todo sobre os mais diversos assuntos. O dia que a cabeça para o corpo envelhece logo todo dia precisamos de novos desafios! Pelo menos é assim que busco viver.

Nossa coluna tende a falar um pouco de como as mulheres são vistas no meio do Rock/Metal. Você já sofreu algum tipo de preconceito por ser mulher e estar em uma banda de rock?
Juh Leidl: Falando no aspecto e ambiente musical, sempre escuto falar sobre essa situação do preconceito com mulheres cantando rock/metal mas sinceramente nunca senti isso na pele. Talvez tenha tido sorte, mas a receptividade nos shows da Threesome sempre foi muito positiva. Já ouvi comentários do tipo:  “-olha não costumo gostar de rock com vocal feminino mas gostei das músicas com seu vocal, casaram muito bem porque você assume uma feminilidade que tem super link com a música que vocês tocam.” É delicado definir até que ponto existe um “preconceito” e até que ponto é uma questão de gosto pessoal? Ou ainda no caso das músicas da Threesome, quando existe espaço e decidimos que vou assumir um vocal em determinada música é porque a mesma pede a sensualidade do feminino, isso que talvez contribua com essa aceitação. Agora no aspecto social estamos em 2017 e ainda temos preconceito sim quando o assunto é “Mulher”, “artista”, “roqueira”, “tatuada... enfim, vem uma verdadeira avalanche de preconceitos muitas vezes velados. É triste que os sutiãs foram queimados há décadas mas o preconceito ainda resiste.

Toda apresentação é uma história, mas nos conte, teve algum fato marcante que tenha acontecido em algum show por parte do público masculino? 
Juh Leidl: Na verdade o público masculino se comporta bem em geral, a situação mais engraçada que já passei com meninos foi a de um grupo em Indaiatuba, se não me engano, que veio me parabenizar e pedir autógrafos, no meio do bar com as camisetas até o pescoço e indicando... “-aqui, no meu peito, assina pra mim!!!”, foi um festival de mamilos masculinos mas levei na boa e mesmo nessa situação foram bem educados rs. Já as mais empolgadas são as mulheres. Crawling costuma despertar algo que não sei explicar e já recebi olhares e berros da platéia feminina gritando pra mim “-Come craaawling babeeeeee”. Mas acho que não existe emoção maior do que chegar em uma cidade em que não conhecemos ninguém, com um som autoral e ver a galera começar a cantar as músicas junto com a gente. Fizemos um show em Jundiaí memorável nesse sentido e nunca vou esquecer. Começamos a primeira música e um grupo enorme de headbangers com os braços cruzados na frente do palco e cara de bravo, eu olhava e pensava “ok, vamos levar garrafadas daqui a pouco!”, segunda música e os braços já desceram e as caras menos desconfiadas, terceira música pezinhos batendo, quarta música ganhamos a galera e o pessoal começou a cantar junto mesmo sem conhecer a letra, quem estava no andar de cima do bar onde uma banda multicover se apresentava não parava de descer e lotar em frente ao nosso palco. Inesquecível!

Como você vê a maneira que o público masculino lida vendo mulheres no palco?
Juh Leidl: Quem sobe num palco fica em evidência seja homem ou mulher. Quem gosta de rock quando assiste uma banda de autoral, está querendo realmente ouvir a música e entender se aquilo é bom ou não. O público que hoje aceita e gosta de ouvir coisas novas já é diferenciado, um nicho exigente e interessado em MÚSICA antes de qualquer coisa. Talvez em outros estilos a presença de uma mulher no palco seja mais relevante do que a música mas quando falamos do público de rock e mais ainda autoral não percebo isso, aliás pelo contrário. Ser mulher no palco não comove em nada quem está lá embaixo, se eu não provar por A mais B que estou ali dando meu sangue e fazendo um bom trabalho nos vocais não ganho a galera de jeito nenhum. No rock autoral uma rebolada e dedinho na boca não ganham o público, ou vc ganha a galera no gogó ou não ganha nada.

Mudando um pouco de assunto antes de finalizarmos. Como está o andamento dos trabalhos da Threesome?
Juh Leidl: Estamos muito entusiasmados com os resultados finais que estamos colhendo nos arranjos das músicas que vão pro EP. Temos um álbum lançado logo que a banda começou mas depois de 5 anos percebemos que a banda ganhou além de um entrosamento e conexão entre os músicos muito maior e mais natural estamos mais maduros em relação a nossa linguagem e estamos levando essa experiência para cada uma das faixas que entrarão no EP. Estou realmente ansiosa pra entrar em gravação em março. Atualmente estamos nos últimos detalhes antes de entrar pra gravar.


Juh, agradeço de coração sua disponibilidade. Quer deixar uma mensagem para os leitores?
Juh Leidl: Minha mensagem é não deixem o rock morrer! Conheçam e busquem por bandas novas, lá fora e aqui no Brasil! Existem várias excelentes nesse país e pra que elas continuem, nós amantes da boa música e do bom rock somos fundamentais! Frequentem bares de shows de música autoral ou estaremos fadados a morrer ouvindo o mesmo álbum do AC/DC! (Tudo bem também amo AC/DC mas não deixo a mente fechada jamais). 



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