26 abril, 2017

Entrevista: Max Kolesne (Krisiun)

Ainda sobre a noite do último sábado em Florianópolis/SC, O SubSolo conseguiu uma entrevista exclusiva com Max Kolesne, que assume a metralhadora que é a bateria do Krisiun. Acompanhamos a passagem de som da banda e, logo após, trocamos uma ideia muito legal com o Max. Aproveitamos a oportunidade pra entregar um exemplar da primeira Coletânea O SubSolo em mãos para a banda. Confere aí como foi a nossa conversa:



Inicialmente, agradecemos a disponibilidade do Krisiun em nos conceder essa entrevista. O show de hoje está sendo muito aguardado pelo público, sabemos que muitas pessoas de outras cidades se deslocaram até Florianópolis só para curtir o show do Krisiun, junto às duas bandas de abertura. Qual a expectativa para esta noite, em relação ao público e às outras bandas?
Max: A expectativa é a melhor possível. Sempre que a gente toca aqui, a galera comparece. A gente tem amigos e fãs de longa data também. Então, acredito que vai ser um show bem legal, vai ser bem brutal e a galera vai curtir.

No final do ano passado, vocês viveram uma experiência que, sem dúvida, deve ter sido única: abrir o show da turnê de despedida do Black Sabbath em Porto Alegre. A turnê "The End" mexeu com headbangers de todas as idades, de todos os lugares do mundo; participar disso tudo deve ter sido demais. Conte pra nós um pouco sobre isso.
Max: Pô, pra nós foi um sonho realizado. O Black Sabbath, pra mim, é o verdadeiro criador do Metal. Obviamente que houve outras bandas que influenciaram muito, desde Jimi Hendrix, desde o Blues, e também Led Zeppelin, Deep Purple... Mas o Black Sabbath dinamizou e criou o Heavy Metal verdadeiro. Então pra nós, pô, participar, ter a chance de abrir pra eles foi um sonho realizado. Acho que toda a estrada, toda essa luta de tantos anos que a gente têm vivido aí... Um momento desse aí já vale tudo isso, tá entendendo? Foi espetacular! A gente tinha um certo receio por tá abrindo um show de uma banda de Metal, que tem fãs de todos os tipos, todas as vertentes do Rock e muitos não estão familiarizados com o Death Metal Brutal. A gente ficou surpreso que a recepção lá em Porto Alegre foi muito legal, terminamos o show e a galera gritou o nome da banda. Então foi espetacular!

Voltando quase 3 décadas no tempo: vocês contaram n'uma outra oportunidade sobre seus 25 anos, que o primeiro vocalista era bem melódico e vocês se tornaram mais pesados e velozes quando o Alex assumiu os vocais. Você acha que o Krisiun, hoje, seria uma banda de Heavy se o vocalista tivesse continuado, ou a vontade de tocar algo mais visceral faria com que vocês dispensassem o cara?
Max: Independente de ele ficar ou sair da banda, a gente ia seguir essa trilha aí, já era uma coisa natural no Krisiun. Na verdade, ele não era um vocalista melódico, ele tinha aquela influência de Heavy Metal tradicional, de Dio e Eric Adams, aquela vertente mais Heavy Metal clássico. Só que a gente começou a tocar aprendendo a tocar junto, era eu, o Alex e o Moyses tentando fazer umas músicas. A gente fez uma instrumental, que seguia aquela linha meio Heavy Metal, meio Thrash, porque a gente tava aprendendo a tocar, então nem tinha condição de querer tocar um lance mais rápido, mais agressivo. Só que aí com o tempo a gente foi ensaiando muito e essa vontade de tocar coisas velozes, mais rápidas, mais pesadas foi um processo natural. A gente ensaiava num estúdio que era do Flávio do Leviaethan. Ele tinha um bumbo na bateria, eu tinha um bumbo velho de lata, comecei a levar nos ensaios e comprei outro pedal. Aí a gente começou a fazer o uso de dois bumbos, isso aí foi uma grande mudança na música do Krisiun: começou a ficar mais rápido naturalmente. A gente também sempre foi muito fã das bandas que surgiram ali depois do Heavy Metal clássico, como Slayer, Destruction, Possessed, o próprio Sepultura, na época do Schizophrenia, Beneath the Remains, um pouco mais tarde aí veio Morbid Angel, Deicide, que também foi influência pra nós, Sarcófago... Todas essas bandas. Então a gente já curtia essas bandas e com o tempo a influência delas foi ficando mais forte no som do Krisiun. E a questão do vocalista era bem isso, ele faltava muito os ensaios, ele morava em Ijuí e a gente tava em Porto Alegre, aí ele sempre dava uma desculpa “ah, não vai dar pra ir pro ensaio”. O Alex começou a criar as linhas de vocais, a gente fazia uma música e o Alex quebrava um galho. Fomos ensaiando tanto com ele que a gente começou a perceber que o vocal dele já era naturalmente mais agressivo, mais brutal e se encaixava muito melhor ao som da banda e aí a gente demitiu o cara e falou que o Alex ia ser o vocalista oficial. Inclusive ele que fazia as letras, fazia as linhas de vocais pra passar pro cara... Olha a moleza que ele tinha! E foi isso, a gente demitiu ele, continuou como trio e a coisa foi ficando cada vez mais Death Metal, cada vez mais brutal.

O "Forged in Fury" foi lançado em 2015. Quais os projetos futuros para o Krisiun? Estão trabalhando em material novo no momento? Podemos esperar algo logo?
Max: Ah, não muito logo. A gente já tá focado, já tá com a cabeça no próximo disco, mas ainda tem todo um processo de composição, a gente tira um tempo pra se focar nas músicas novas. Ainda temos uma agenda bem extensa pra cumprir: a gente vai pra Ásia mês que vem com o NervoChaos, depois vamos fazer duas turnês consecutivas na Europa, em junho e julho. Aí a gente tá pensando em, a partir de agosto, focar 100% e dar uma paradinha nas turnês por um tempo, pra conseguir se concentrar legal. Mas a gente já tá bem focado, já temos umas ideias. Com certeza vai ser um disco diferente do Forged in Fury, acho que naturalmente vai seguir uma linha mais agressiva, mais veloz, buscando um pouco aquela raiz dos discos antigos.

Vocês são uma das bandas que mais toca no exterior. Poderia contar um pouco para nós sobre os aspectos da cena que são diferentes em outros países? Talvez coisas que chamaram atenção por confirmar ou não suas expectativas.
Max: O público do Metal é muito parecido no mundo inteiro, é incrível essa semelhança, essa cultura e esse sentimento que o headbanger tem. É incrível, sabe? Você toca no Brasil, de Norte a Sul, a galera tem sotaque diferente, come umas comidas diferentes, mas o headbanger é muito parecido, muito respeitador quando recebe a banda, são orgulhosos e curtem essa vida. Porque é um estilo de vida, não é só uma música que você curte, por isso que tem essa semelhança. E a gente vê a mesma coisa na Alemanha, na Rússia, no Canadá, nos Estados Unidos. O headbanger é muito parecido, ele gosta das mesmas coisas, o tipo de relação que eles têm... A gente sente que sempre tem a cena local e o pessoal se conhece muito bem, são amigos e gostam muito de “festear” juntos, beber juntos, escutar som juntos, que é a coisa que o headbanger gosta de fazer, né? Boas amizades, tomar uma cerveja, curtir um show, receber bem as bandas e apoiar a cena. O pensamento é muito parecido. Lógico que, as primeiras vezes que a gente foi pra Europa, tomamos um susto pela diferença do profissionalismo. Até então, o Krisiun no Brasil só tinha tocado em lugares bem underground, a gente não tinha as exigências que tem hoje em dia. A primeira turnê lá também, a gente tocou em lugares bem underground, lugares pequenos, mas já notei aquela diferença da estrutura, todos os equipamentos dos caras lá muito melhores. Só que hoje o Brasil já melhorou bastante nesse sentido, isso foram nos anos 90. Hoje em dia, já tá bem melhor aqui. A estrutura que as bandas que tão começando pegam já é coisa boa, porque é mais fácil o acesso a esse tipo de equipamento.


Você tem dicas para bandas autorais que estão começando agora? E para as bandas que almejam contato com o exterior?
Max: São tantas coisas que fica até difícil explicar. Lógico que a gente sempre batalhou muito. No começo, acho que uma coisa que nos manteve unidos e fortes foi a convicção que a gente sempre teve na banda. Nunca nenhum membro do Krisiun ficou em cima do muro, sabe? Na dúvida se ia seguir a carreira dentro da banda ou se talvez fosse partir pra outra coisa, mesmo quando ninguém conhecia a banda. Muitos falavam mal, que o Krisiun era uma banda muito barulhenta, quando a gente chegou em São Paulo. Mas a gente sempre teve muita convicção, 110% os três focados na banda. Por isso mesmo aqueles que tentaram entrar no Krisiun não se encaixaram, porque a gente era muito focado na parada. Era uma coisa que não tinha nem explicação, porque, se for parar pra ver, isso é até errado, né? Tipo assim, a gente deixou tudo pra trás, parou de estudar... Eu larguei o emprego, comecei a me dedicar obviamente a tocar cada vez melhor e aí fazer uns bicos dando aula de bateria, aula de guitarra. Aquela coisa, né? Se virava como dava, a grana sempre muito curta, porque a gente deixou tudo pra trás, deixou a vida que tinha no Sul e foi pra São Paulo com a cara e com a coragem. Mas nunca teve um momento de fraquejar, a gente nunca pensou “puta, será que vai?” Não, a gente sempre foi muito focado, acho que essa determinação, essa loucura foram determinantes pra que a banda conseguisse chegar aonde chegou. Não que tenha chegado ao topo, porque pra mim todo mundo é igual. Tem banda que faz bem menos shows, que de repente não tem um reconhecimento maior, mas tão se divertindo, tão curtindo a vida de músicos. Às vezes o cara tem uma banda e tem um emprego paralelo e tá feliz tocando. Acho que o importante é isso, o importante é tá feliz, tá fazendo o que gosta. E também a gente sempre foi muito atrás de contatos com gravadoras e outras bandas. Sempre teve essa visão de que no exterior a chance era boa e realmente foi isso que aconteceu: quando a gente lançou o Black Force Domain, ele foi muito bem recebido na Europa, principalmente. Acho que foi uma época que o Grunge tava em alta, o Death Metal tava se fortalecendo e muitas bandas de Thrash dos anos 80 meio que deixaram pra trás porque tava complicado, a moda era outra e o público tava reduzido... Então, acho que quando a gente lançou o Black Force Domain, conseguimos conquistar um público old school, mas com aquela forma do Death Metal Brutal, porque é um disco que tem muita influência dessas bandas, como o Possessed, aquele lado cru e selvagem que essas bandas tinham nos anos 80, mas a gente tocando numa forma um pouco mais moderna e mais Death Metal, mais brutal, mais rápido. Acho que caiu bem no gosto dessa galera que tava um pouco órfã na época (risos). Foi meio que sorte: a gente lançou o disco certo na época certa.

Há alguns anos, vocês lançaram a faixa “Extinção em Massa” com participação do João do Ratos de Porão e o feedback foi dos melhores. Este ano, em junho, o Krisiun e o Ratos tocarão no Tropical Rock Fest II. Existe algum projeto sendo pensado entre vocês?
Max: A gente toca esse som com o Gordo, né. A gente já fez isso inclusive no Obscene Extreme, aquele festival na República Tcheca. A gente tocou com o Ratos alguns anos atrás e esse ano a gente vai tocar de novo com eles, então provavelmente vai rolar de novo de a gente tocar “Extinção em Massa” com ele. A gente é muito amigo, volta e meia a gente faz uns churrascos lá no estúdio e ele aparece com a esposa dele e os filhos. É uma parceria não só musical, mas a amizade é verdadeira.

Você está de olho no underground brasileiro? Acha que as bandas atuais têm potencial? 
Max: Tenho muito contato com bandas underground. Tem o Exterminate, Claustrofobia... Putz, são várias, cara. Tô sempre acompanhando essa galera aí, acho que eles tão fazendo um ótimo trabalho, tão fazendo um som legal, um som brutal e tão se dedicando. O underground tem que 'tá' sempre vivo e forte, sempre vai ter bandas novas aí pra manter a chama viva. Hoje em dia, surgiram muitas ramificações dentro do que seria o Death Metal Brutal, o Death Metal seja lá o que for, umas coisas que eu não curto, umas bandas que misturam muita coisa. Às vezes os caras querem ser muito técnicos e os caras acabam ficando perdidos com tanta informação: muito bons, muito técnicos, mas às vezes não tem aquele feeling. E o espírito do Death Metal é talvez buscar um pouco aquela simplicidade, aquela autenticidade do passado e não só tentar tocar igual outras bandas que tem por aí, né?

Ainda sobre a cena brasileira: aqui no Sul é muito claro o aumento de bandas de tributo à grandes nomes do metal. Os eventos com tributos enchem, em geral, mais que os eventos do underground. Os festivais são uma resistência que temos à essa lógica. Qual a tua opinião sobre isso?
Max: Sempre teve uns festivais legais aqui em Santa Catarina, né? É, é isso aí, a galera tem que se unir, eu acho que principalmente nesse momento... As bandas underground tem que ir nos shows das outras bandas, um tem que ir no show do outro, tem que se unir. A união faz a força, sozinho ninguém chega a lugar nenhum. Não adianta o cara ter uma banda, achar que vai chegar em algum lugar e não ir nos shows. Às vezes o cara na maior preguiça de ir num show que é do lado de casa, sabe? Tem que ir, tem que apoiar, tem que fazer volume nesses shows, trazer gente e acabar com essa palhaçada aí, porque banda cover ficar levando mais público do que banda autoral é complicado. O underground tem que se unir, as bandas principalmente, porque assim um ajuda o outro, a banda vai no show da outra banda, aí é bom pro produtor, o produtor vai querer fazer mais shows, vai querer manter a coisa viva.

Mais uma vez, agradeço em nome de toda a equipe d’O SubSolo por toda essa atenção. Gostaria de deixar algum recado para os leitores do blog e para seus fãs?
Max: Bom, é isso aí galera! Obrigado pelo apoio de sempre! Vocês sabem que o Krisiun é uma banda fiel às raízes do verdadeiro Death Metal e assim seremos até o último dia que estivermos vivos nesta Terra maldita. Valeu por tudo, amigos! Estamos juntos. Família do Metal até a morte! Grande abraço! 




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