05 julho, 2017

Entrevista: Edu Lane (NervoChaos)

O SubSolo teve a honra de entrevistar Edu Lane, baterista e único membro remanescente da banda NervoChaos, que é mundialmente conhecida por seu Death Metal. Em 2016, NervoChaos completou 20 anos de carreira, tendo rodado o mundo inteiro com suas turnês. Durante o festival United Bands, na cidade de Lages (SC), trocamos uma ideia com o Edu, onde ele relatou muitos detalhes sobre a história da banda, o novo disco e as viagens mundo a fora. Vem com O SubSolo e entre no mundo do NervoChaos!



Foto: Leandro Cherutti

Olá Edu! Primeiramente nós d’O SubSolo parabenizamos o NervoChaos pelos 20 anos de carreira. Nesses anos de estrada a banda conquistou muito público e viajou o mundo, porém, também passou por momentos complicados. Quais os principais fatores responsáveis por manter duas décadas de banda?
Edu Lane: Eu acho que o essencial para qualquer coisa que você faz na vida é amar aquilo que você faz, porque só assim é possível superar todas as dificuldades e seguir em frente naquilo que acredita. A banda é algo assim para mim. Eu nunca parei para pensar muito em quantos anos a gente está na estrada. Obviamente que quando completamos 20 anos, todo mundo comentava a respeito, e aí quando parei para pensar, olhei para trás e pensei ‘caramba, já passaram 20 anos!’. Mas não é algo que diariamente a gente fica pensando. Para manter a banda, é só com amor à causa. Não tem segredo. Para qualquer coisa na vida, se você ama aquilo que você faz, com certeza vai lutar com todas as forças e não vai ter tempo ruim. A gente enfrenta as dificuldades.


NervoChaos passou por muitas mudanças de formação durante a carreira. Em algum momento vocês ficaram receosos quanto à aceitação do público ou de os fãs se tornarem inseguros sobre o trabalho de vocês?
Edu Lane: Toda mudança de formação é algo complicado. No meu caso, por ser o único membro original remanescente na banda, não é algo que eu desejo que aconteça, mas muitas vezes é necessário acontecer para a banda se manter ativa, isso acontece para o bem da banda. Eu penso sempre em um bem comum e não só na minha pessoa. É claro que qualquer mudança gera uma certa insegurança nas pessoas, principalmente quando se trata de posições chave, como mudar um vocalista. Às vezes as pessoas perguntam o que vai acontecer com a banda e com a nossa sonoridade. Mas eu acho que com o tempo a gente vem mostrando que, apesar de todas essas mudanças, nós não mudamos nossa proposta inicial, não mudamos o número de RG da banda. A banda tem que ter uma identidade e isso permanece inalterado. Obviamente houve uma evolução sonora, a banda vem buscando evoluir, buscando sua sonoridade própria. Cada integrante novo traz sua bagagem, traz um tempero novo para a banda, mas eu procuro sempre manter o NervoChaos na proposta inicial, para não perdermos a identidade. Quero fazer um som onde as pessoas reconheçam que é NervoChaos. Temos sete discos de estúdio e se você analisar do primeiro ao mais recente, você vai ver que é a mesma banda, mas ela está mais madura e talvez mais confortável aos processos de composição, mas a essência continua lá. A galera que nos acompanha e gosta da gente acho que já percebeu isso, que independente de mudança de formação, NervoChaos se mantém com a proposta intacta, seguindo  em frente.


Recentemente vocês gravaram o sétimo álbum, intitulado "Nyctophilia". Esse novo trabalho foi gravado na Itália, no Alpha Ômega Studio, junto ao produtor Alex Azzali, que já havia trabalhado com a banda anteriormente. Como foi a escolha de gravar no exterior e qual a diferença entre gravar no Brasil e gravar fora?
Edu Lane: Todos os discos, com exceção desse último, a gente gravou no Brasil. Nós sempre procuramos mudar de estúdio, buscar novos ares para não cair naquelas fórmulas que muitas bandas utilizam. Sempre quisemos nossa sonoridade própria. A cada disco vínhamos mudando. No disco “To The Death” (2012) fomos gravar no Rio de Janeiro e mandamos pro produtor Alex Azzali, para ele mixar o nosso trabalho. Então a gente gravou no Rio, enviou pra ele e ele mixou na Itália e nós gostamos do trabalho dele, então resolvemos no disco seguinte “The Art of Vengeance” (2014), trazer o Alex pro Brasil. Fomos novamente pro Rio de Janeiro, mas dessa vez em outro estúdio. O Alex fez toda a gravação e a produção, mas ele levou o material para mixar e masterizar fora. Dessa forma nós sentimos que o passo natural para o “Nyctophilia” (2017) era justamente ir ao estúdio do Alex em vez de trazer ele pro Brasil. Assim experimentamos novos ares, achamos que foi legal porque sempre tivemos aquele sonho de gravar fora do Brasil, então quando surgiu oportunidade de ir pra Europa, nós fomos. Terminamos uma turnê que estávamos fazendo na Europa junto com o Incantation e então já ficamos lá para gravar o disco. Ficamos um mês na Itália, na cidade de Como, foi legal porque ficou só a banda com o Alex, então pudemos trabalhar nas músicas, na produção, demos uma lapidada final e fizemos a gravação usando as armas dele, em vez de trazer ele para usar outras armas. Eu acho que a gente acertou. Não foi uma questão de menosprezar o produto que é feito no Brasil, pelo contrário, temos o maior orgulho de todos os discos gravados aqui, onde tem bons produtores e bons estúdios, mas dessa vez quisemos experimentar algo novo.


Vocês têm agenda lotada no Brasil e no mundo. Como foi trabalhar com uma nova formação, fazendo uma sequência ininterrupta de shows?
Edu Lane: Houve um ano em que foi tudo muito louco mesmo. Em 2015 a banda sofreu quatro mudanças de formação durante o ano e durante a tour, mas a gente conseguiu de alguma forma não parar, não deixar a peteca cair e continuar na estrada. É claro que isso não deu margem para trabalharmos em material novo, até por isso o “Nyctophilia” demorou um pouco mais pra sair, queríamos ter lançado em 2016, mas acabou saindo só agora em 2017. Após as saídas e entradas de membros, em 2016 nós já estávamos com uma formação estruturada, a banda toda renovada, então usamos o ano de 2016 para trabalhar no material novo, fizemos alguns shows para dar uma entrosada nessa formação, gravamos o disco no meio do ano e permanecemos fazendo shows no ano de 2016, mas promovendo o lançamento anterior. Agora em 2017 já começamos acelerando, desde janeiro viemos fazendo shows. Fizemos quatro shows pelo Brasil no início do ano, depois em março partimos para uma turnê latino-americana, junto com o pessoal do Krisiun, onde fizemos desde o Uruguai até o México, com exceção do Brasil. O lançamento do disco foi em abril. Já em maio nós partimos para a Ásia, novamente com o Krisiun. Esse pacote NervoChaos e Krisiun, nós quisemos fazer este ano porque comemoramos 20 anos da nossa primeira turnê, que foi junto com o Krisiun, então pensamos justamente em unir as duas bandas e fazer algo bacana. Agora estamos em turnê pelo Brasil, onde faremos nossa maior turnê brasileira até então, serão 65 shows pelos Brasil em 10 semanas. Já estamos na terceira semana da tour. Após essa turnê brasileira, seguiremos para turnê europeia que inicia em setembro e termina no final de novembro. Em dezembro ainda não sabemos, talvez a gente faça alguns shows aqui no Brasil para encerrar o ano. Este ano está sendo muito importante pra gente, porque completa um ano dessa formação, comemora o lançamento do nosso sétimo disco e a gente deve bater uma marca de uns 180 shows ou mais no ano, o que para nós é muito bacana, realmente muito importante.






Recentemente NervoChaos tocou com grandes bandas, que certamente foram influências para vocês. Qual  o sentimento de tocar com gigantes do Metal?
Edu Lane: Se lá no início alguém me falasse que um dia eu faria isso, eu não ia acreditar. É a realização de um sonho, poder dividir o palco e poder se tornar amigo desses ícones, dessas pessoas que inspiram a gente. Por exemplo, fizemos uma turnê ano passado com o pessoal do Venom INC, com o Mantas, Abaddon... e foi graças ao Abaddon que eu comecei a tocar bateria lá em 1986. Para mim foi muito louco estar dividindo um ônibus com eles, fazer 20 shows juntos e aprender com os mestres. É algo meio surreal quando a gente para pra pensar. Lá no Hammersonic encontramos com o pessoal do Abbath, Entombed e trocamos uma ideia... isso é bem mágico, é resultado das oportunidades que a banda vem nos oferecendo. Na verdade eu não tenho nem palavras para expressar meu sentimento.


Como vocês viajam o mundo inteiro, certamente já tiveram diferentes tipos de recepções, observaram diferentes comportamentos e culturas. Recentemente aconteceu aquele episódio onde vocês foram barrados no aeroporto em Bangladesh. Como vocês lidam com tudo isso? Tem alguns países que recebem vocês melhor e outros nem tanto? Já havia ocorrido algum atrito por cultura ou religião em ocasiões anteriores?
Edu Lane: Eu tenho uma visão que headbanger é headbanger em qualquer lugar do mundo, independente da sua cultura, do seu sexo, da sua condição social. Os comportamentos são muito similares, mas é necessário entender algumas diferenças básicas. Por exemplo, na minha visão, o público europeu costuma ser um público que agita um pouco menos do que a gente está acostumado aqui, mas também eles têm oportunidade de acompanhar a cena muito mais de perto do que a gente. Eu não acho que um é melhor que o outro, só são formas diferentes que as pessoas têm de curtir. A gente sempre foi muito bem recebido, mas ultimamente o mundo vem vivendo um momento um pouco delicado, na minha opinião. Tanto em questão religiosa, com a ditadura religiosa que vem assolando o mundo, seja o Islã, seja o Cristianismo, quanto em problemas sociais que a gente enfrenta não só no Brasil, mas na Europa, com vários países em crise. Os Estados Unidos também enfrentou uma grande crise. Todos esses são fatores que muitas vezes impossibilitam as pessoas de estarem comparecendo e apoiando, até por uma questão financeira. Como nosso trabalho é entretenimento, a gente não é um produto de maior necessidade em um caso de crise. Nós já havíamos feito turnê na Ásia em 2016, tocamos na África, em diversos lugares e nunca tivemos nenhum tipo de problema. Acho que o preconceito existe e nós vivemos isso diariamente, seja no Brasil ou no exterior, mas a gente consegue lidar com isso. O que aconteceu em Bangladesh com a gente, foi algo que nem imaginávamos que ainda existia, uma ditadura, uma repressão, um preconceito tão latente e tão forte. Por um lado acho que foi bobeada nossa, por não termos investigado melhor sobre o país, mas ao mesmo tempo a gente tem o costume de tocar foram, tínhamos vistos emitidos, o produtor pagou as passagens, pagou o cachê, a gente viu o público comprando ingresso, então tivemos todos os sinais positivos dizendo que estava tudo certo. Quando iniciamos a turnê asiática fizemos Singapura, depois fomos para Jacarta e quando estávamos voando de Jacarta para Bangladesh, o ministro de Bangladesh cancelou o evento e deu uma ordem de prisão para os músicos caso eles aparecessem, mas nós não sabíamos disso porque estávamos voando para lá. Quando chegamos, por volta de 1 hora da manhã no aeroporto, fomos retidos pelas autoridades locais, tivemos passaportes confiscados, ficamos em torno de 12 horas retidos no aeroporto em uma salinha, sem grandes explicações. Resolvemos acionar o consulado brasileiro do Itamarati e eles fizeram um trabalho magnífico, tiraram a gente do aeroporto, nos levaram para um hotel, dormimos lá uma noite. O hotel era protegido pelo exército. A ditadura lá é enorme, se você pesquisar um pouco sobre o país vai perceber que nossas vidas estavam em risco. Graças ao Itamarati nós conseguimos sair de lá. Esse acontecimento nos fez refletir sobre uma série de coisas que muitas vezes esquecemos no nosso dia a dia, pequenas coisas que possuem grande valor, como a liberdade. Apesar de todos os problemas que temos no Brasil, podemos vestir a roupa que queremos, podemos escolher ir a um show, podemos ouvir a música que preferimos, podemos seguir a religião que quisermos. Então essas são coisas que nós temos e que talvez se tornam tão corriqueiras que a gente acaba esquecendo ou não dando devido valor. Bangladesh para nós foi um choque tão grande que nos fez refletir e rever muitas coisas. Ficamos chateados com a falta de liberdade que aquelas pessoas vivem. Também ficamos muito comovidos com o vídeo que fizeram, onde os fãs se juntaram e pediram desculpas, falaram que estavam envergonhados pelo acontecido. Acho que foi um acontecimento mundial que movimentou muita coisa, entrou na imprensa não só no Brasil mas na Europa, nos Estados Unidos, saiu na BBC. Dessa forma eu espero que traga um sopro de liberdade para esse pessoal de lá. Nessa ocasião nós acabamos cancelando os shows em outros lugares que iríamos na turnê asiática, pois havia um risco similar. Achamos que já tínhamos abusado muito da sorte e optamos pelo cancelamento dos shows na Mongólia e China. Depois disso seguimos pro Japão, fizemos show lá, também tocamos na Coreia do Sul e agora estamos de volta ao Brasil.

Além da cena no exterior, com certeza vocês vivenciaram muito da cena no Brasil. Tendo experiência nesse meio, o que você tem notado da cena underground brasileira? Como anda? Quais foram as mudanças nos últimos tempos?
Edu Lane: Eu acho que a cena brasileira vem evoluindo muito. Creio que a internet ajudou bastante, essa globalização ajudou bastante, mas acho que as pessoas também não podem se perder nisso ou só se basear nisso. Acho que isso é uma ferramenta magnífica, essencial atualmente. A internet mudou a música de figura, facilitou muitas coisas, mas no meu ponto de vista, trouxe algumas coisas negativas. As pessoas não dão mais o devido valor às coisas, tudo é muito descartável, tudo é um pouco superficial. Mas o lado positivo é que você tem acesso a equipamentos, acesso a informações, pode trocar ideias com outras bandas. Penso que a cena brasileira de música extrema, não só do Metal, mas também Hardcore e Punk, vem crescendo. O Brasil é um dos maiores berços culturais do mundo, não deve nada a lugar nenhum. Nós que começamos em 1996, nunca imaginávamos fazer um turnê no Brasil e hoje a turnê que estamos fazendo é justamente para trazer um pouco da cultura que vemos lá fora, onde se toca todos os dias, onde os shows durante a semana são mais cedo, mas são importantes porque mantém a banda viva, fortalecem a cena local. Por exemplo aqui hoje, é uma quarta-feira e talvez um espaço como esse estaria fechado, mas se as pessoas começarem a valorizar o espaço que tem na sua cidade, vai ser bom para a cena no geral, não só para nós, mas para bandas locais, para os donos das casas, para os produtores e para o público local. Isso é uma cultura que demora um tempo para ser assimilada, porém tenho visto cada vez mais bandas brasileiras fazendo turnês pelo Brasil e eu acho que estamos no caminho certo. Só reclamar é fácil, a gente é que faz a cena, então precisamos arregaçar as mangas, entender os nossos problemas e fazer disso aqui um lugar melhor pra nós mesmos.


Edu, nós agradecemos imensamente por essa entrevista. Para nós é uma grande honra! Para encerrar, você gostaria de deixar um recadinho aos leitores d’ O SubSolo?
Edu Lane: Primeiramente quero agradecer muito pelo espaço e pela oportunidade de fazer essa entrevista com vocês. Recebi as Coletâneas O SubSolo, não ouvi ainda, mas vou ouvir. Estão de parabéns pela iniciativa, por fazer esse coletivo. Eu sei que não é fácil, mas vocês podem sempre contar com a gente e vice-versa, estamos nessa por paixão e não por modismo. Vocês têm a essência do verdadeiro underground. Continuem mantendo forte esse trabalho bonito que vêm fazendo. Força, gente! Compareçam aos shows, apoiem as mídias alternativas como O SubSolo e muito obrigado! Vejo vocês na estrada em breve! 





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