Resenha: Prequelle - Ghost (2018)

Este ano a banda sueca Ghost completa dez anos de existência. Foi lá na cidade de Linköping, que abriga cerca de 160 mil habitantes, que surgiu um projeto de rock ocultista sem grandes pretensões, mas que hoje, quatro dias após seu último lançamento, Prequelle, já acumula mais de 500 mil audições só em seu novo trabalho no Spotify, e um total superior a oito milhões de visualizações nos clipes dos singles "Rats" e "Dance Macabre" no YouTube. Dez anos de banda e os números são simplesmente impressionantes. Estamos falando de uma banda que em uma década saiu do anonimato -literalmente- e hoje seus lançamentos são verdadeiros tremores nas mídias especializadas. Por isso, hoje falaremos de Prequelle.




Conheci a banda graças ao Rock in Rio de 2013, e desde então me tornei um devoto fiel das profanas figuras que tomam vida através do músico Tobias Forge, homem por trás de todo o conceito e criação do Ghost, que nada mais é na verdade que um projeto solo que tomou maiores proporções. É ele quem interpretou as três gerações de Papa Emeritus e o agora novo showman da banda, Cardinal Copia, que é um aspirante a Papa Emeritus IV, mas que apenas seu desempenho nessa nova fase da banda poderá confirmar isso. O trabalho de Forge é acompanhado por músicos desconhecidos (ou não), que assumem as identidades de Nameless Ghouls, mantendo o anonimato quanto a quem gravou e quem sobe ao palco ao lado do vocalista do grupo.

O que vale destacar desde já é que Ghost não é uma banda previsível. Desde seu primeiro lançamento, Opus Eponymous, em 2010, até o álbum de 2015 Meliora, muita coisa mudou e nenhum álbum se assemelha ao outro de forma nítida. Então, tolo fui eu em esperar que Prequelle fosse manter o peso de ser predecessor. Quando você olha a capa dele é de se esperar que seja um álbum pesadíssimo e que talvez fosse a hora da banda ir encontrar a brutalidade, mas é exatamente o oposto disso, pois é aqui que encontramos a fase mais pop e comercial da banda. Em contra-ponto a isso, uma das palavras-chave que posso ligar a esse disco é "tensão". Com base nisso será frequente utilizar o termo para definir a climática proposta por Forge para a sua fase Cardinal Copia.



A faixa que abre a audição é "Ashes", que coloca o ouvinte dentro dessa ambientação proposta por Ghost para Prequelle. Os elementos sinistros apresentados casam com o conceito do disco, que é a nova idade das trevas em que estamos mergulhados. A deixa para "Rats" é perfeita, e então o disco já começa com força total. A música já é um clássico da banda, desde seu lançamento em abril. Instrumentos bem alinhados, guitarra marcante, melodias fortes e um refrão totalmente cativante. Música pra ouvir com volume muito alto e cantar junto. Mas é daqui pra frente que as surpresas começam.

"Faith" lhe faz acreditar que a banda realmente vai andar na linha do Heavy Metal aqui em Prequelle. O riff de início é soberbo e já chama sua atenção, a cadência ao longo da canção é o peso que esperamos da banda, e seu refrão é agressivo e que vai lhe fazer cantar junto nas próximas audições. Aliás, ponto positivo para os refrões de Ghost, que sabe trabalhar a construção correta para torna-los potentes e grudentos. O resto da música é bem elaborado por todos os instrumentos, nada complexo, nada que vá lhe deixar embasbacado por termos de técnica, mas que vai prender nos ouvidos justamente pela forma que os instrumentos são conectados de forma pontual e sem exageros. Ainda sobre "Faith", para mim, é uma das melhores faixas do disco, então temos um começo realmente forte e que cria grandes expectativas pelo o que está por vir.

Em "See The Light" já temos um direcionado mais forte ao pop, mas não ache que o peso está perdido aqui, pois ele está presente na dosagem correta e nos momentos mais oportunos, deixando maior parte do trabalho por conta das teclas. O refrão é mais uma vez marcante, mas a música não me cativou tanto, diferente da seguinte: "Miasma". Aqui, Cardinal Copia não aparece com sua voz, sendo a primeira puramente instrumental do disco. A grande graça dessa faixa é como os elementos vão sendo introduzidos com classe e categoria. Cada um tem seu momento, sua entrada triunfal, proporcionando uma progressão climática de tirar o ar. Quando você acha que a guitarra é o destaque com seus riffs inspirados em "Beat It" de Michael Jackson, você é totalmente devastado pelo último a chegar na festa, e que era totalmente inesperado: Papa Nihil com seu saxofone. O "grão-mestre" do Clérigo de Ghost tem seu momento de Kenny G (aliás, permita-me compartilhar minha imaginação do famoso saxofonista tocando com a banda) e é a chave de ouro para a conclusão dessa magnífica música.

Não bastasse o clímax alcançado em "Miasma", a banda mantém o nível com "Dance Macabre". Esqueça que você está ouvindo uma banda com propostas ocultistas e pagãs, ou algo do tipo e sinta-se mergulhado na fase mais pop-rock dos anos '80. Cativante, dançante e animadora, com um refrão que fica reverberando por dias na cabeça, é a música do ano desde já e ninguém há de me convencer o contrário. Sua sequência é a dramática, tensa, melancólica e, por que não, bela "Pro Memoria". Mais uma música com bela construção harmonica, com uma forte presença das teclas -piano, sintetizadores, órgãos-, e uma boa interpretação vocal de Copia nessa que pode ser considerada uma balada macabra sobre a morte.



"Witch Image" me conquistou por soar bastante nostálgica, relembrando algo que poderia estar nos primeiros trabalhos de Ghost. Apesar de um refrão mais extenso, "Witch Image" tem um impacto forte, e é uma de minhas favoritas do disco. Após ela, nos encaminhamos para o final e somos contemplados com mais uma instrumental: "Helvetesfönsters". Esta abusa de tensão em suas melodias e quase conta uma história através dos instrumentos. São quase seis minutos bem aproveitados, e com um final muito belo e atmosférico, encaixando com a trilha derradeira, a balada "Life Eternal", que parece ser propícia para os encerramentos dos vindouros shows da banda, terminando os trabalhos com uma bela apresentação da nova proposta sonora de Ghost, mais clean e musical, talvez resultado do amadurecimento de Forge como responsável pela banda e por querer almejar vôos maiores com seu projeto.

Me rendo ao que Ghost apresenta em Prequelle pela beleza sonora que nos foi entregue. No começo, esperava algo mais pesado, realmente, mas são justamente essas quebras de expectativas que a banda faz disco após disco que torna sua legião de fãs cada vez mais aficionada por tudo que é apresentado. O disco é um forte postulante a colocar Ghost entre as principais premiações do mundo da música, pois já em Meliora a banda fora premiada com o Grammy de melhor performance dentro do Metal. Apenas me questiono se será apenas na categoria "Metal" que caberá as premiações a Ghost, na verdade, já que Tobias parece determinado em incluir sua banda em um nicho de maior popularidade e que sua "seita" possa arrebanhar novos adeptos.
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