07 março, 2019

Coluna: a essência dos álbuns conceituais - #02 - The Circus Of The Tattered And Torn

"Just bear in mind that love is all they are asking for. Even if it comes with the price of a cheap ticket and a couple of hours filled with hollow scenery."




Continuando a matéria sobre álbuns conceituais, os trago o primeiro álbum que iremos nos aprofundar, o álbum The Circus Of The Tattered And Torn da banda gaúcha Daydream XI, segundo da banda, lançado em 2017. O conceito do álbum orbita em torno de um circo metafórico, onde o público somos todos nós, e as atrações são nossas angustias e conflitos internos de um dia a dia, o próprio álbum é arquitetado em torno dessa estrutura de apresentação, onde o começo traz um prelúdio e após isso cada "atração" tem sua vez à tona. Um sub-enredo desse álbum é a corrupção da inocência, a obra começa e termina com o diálogo de dois personagens: Philip, o mestre de cerimônias e Circe, que é uma espécie de aprendiz, e que como nós, não conhece o funcionamento do circo, mas logo essa "inocência" vai ser abandonada.

As duas primeiras faixas funcionam como um prólogo para a obra, a primeira faixa "Ticket 000011" nos introduz ao enredo e aos personagens, interessante notar que somos inseridos no meio da conversa, logo de cara com uma frase que apresenta o tema forte de decadência no álbum: "No, it's not a place for them to fulfill their dreams". Logo que ganhamos contexto no enredo, o show começa, e vem a segunda parte do prólogo, "Open The Curtains" é uma musica basicamente instrumental bastante não linear, com riffs curtos e transições desorientantes (no melhor sentido). Essa música tem o propósito de nos apresentar aos temas instrumentais da música, tanto que os riffs são os mesmos que das "atrações", porém na ordem inversa.

O primeiro ato do álbum tem uma característica forte relacionada a enganações, tanto as letras falam sobre situações relacionadas a falsidade e mentiras, quanto o instrumental tem riffs desconcertantes e transições inesperadas, que driblam o ouvinte que "confia demais" na música. A primeira música, quarta no álbum, "Trust-Forged Knife" lida bem com esse aspecto destrutivo da enganação, que nos destrói dentro de nossas próprias expectativas e relações que não percebemos ser tóxicas. A próxima música, "Painted Smile" utiliza da ironia, usando o tema principal do álbum no segundo e quinto verso para nos mostrar como todo o espetáculo do Circus of Tattered and Torn é superficial, e no fundo ele esconde nossas angustias de nós mesmos, o que talvez seja a mais vil das enganações.

O próximo ato tem um foco mais voltado aos sentimentos que nos trazem dor, perceba que cada ato é cada vez mais decadente emocionalmente. A música "Windblown" é relativamente direto ao ponto, generalizando momentos de angustia, mas perceba, uma das falas de Philip em "Ticket 000011" diz "they're all just lost, blown by the wind", se referindo ao público, essa é uma referência direta ao conteúdo dessa música, que mostra como as pessoas não vem saida para os problemas e são apenas "levados pelo vento", o que é bem próximo a uma alegoria ao ato do suicídio, tomando o contexto. "A Cup Of Agony" é uma música bastante intensa, ela se direciona bastante ao momento da dor e desespero, a claustrofobia dentro de si mesmo de não saber o que fazer em seus versos, enquanto o interlúdio e o refrão mudam a perspectiva para fora, descrevendo como essa busca por uma saída é tão primal quanto sem sucesso. O tema da dor em "Overhauling Wounds", ao contrário da faixa anterior, que é quase crua em seu desespero, é muito mais contemplativo e prolongado, o que é uma relação que a música tem com o tema do próximo ato. Nesse tom "Overhauling Wounds" lida diretamente com o tema da depressão, mostrando a deterioração do indivíduos pelos próprios sentimentos negativos e erros do passado que não saem de sua mente, a música parece intencionalmente longa para representar o sentimento do personagem de não encontrar saída, as transições instrumentais trazem mudanças de humor fortes para a música, mas a evolução não acontece, no final da faixa o palco fica preparado para o último que envolve várias faixas.

O último ato antes do epílogo traz a desilusão total, as atrações remetem muito a pessoas que fragmentadas e amarguradas, que perderam o sentido e a esperança, mas cada faixa representa isso de uma forma. "Collector Of Souls" é pra mim uma das faixas mais geniais, essa música grita sarcasmo do começo ao fim. O instrumental em boa parte da música remete ao estilo de corais de igrejas americanas, mas num tom muito próximo de uma paródia, pois a letra da música é uma metáfora sobre iludir os sentimentos dos outros através do sexo e do afeto apenas como um meio de auto-afirmação e inflamação do ego, a "Coleção de almas" da música se refere a quantas pessoas foram magoadas em prol do egoísmo o que contrapõe perfeitamente as outras duas faixas do álbum. A faixa "Forgettable" é quase uma antítese direta à anterior, falando da solidão e agonia do medo de ser esquecido, ela junto com "Windblown" e "The Love That Never Was" acabam sendo as músicas menos complexas do álbum, lirica e instrumentalmente, mas tendo em vista a carga profunda na parte emocional do álbum elas cumprem um papel necessário. "The Love That Never Was" é uma música retratando metafóricamente o conflito pessoal após um conflito amoroso, destaque a linha de bateria que carrega o clima de tensão com perfeição, ajudando a transmitir a raiva resguardada que a música carrega, mas agora, ao gran-finale.

O epílogo "The Circus Of The Tattered And Torn" é basicamente a cola que segura a obra junta, é a música que causa o estalo em sua mente, que faz a segunda audição ao álbum fazer muito mais sentido que a primeira, uma faixa extremamente progressiva, que é a cara da banda, carregada de significado. A música traz a tona várias harmonias presentes no decorrer do álbum, enquanto fala diretamente com você, dizendo que as "atrações", apesar de um tanto macabras e bizarras, são conhecidas suas, pois elas vivem dentro de todos nós, mas que mesmo assim, não conseguimos admitir, e nessa nossa falta de aceitação acabamos assistindo a paródias de si mesmos no "Circo dos despedaçados e maltrapilhos". O álbum acaba com mais um diálogo, dessa vez, o mestre dessa cerimônia Philip e sua inocente aprendiz Circe falam juntos como se fossem a mesma pessoa, tire suas próprias conclusões.

Esse álbum com certeza é uma jornada, ele exemplifica muito bem a ideia de um álbum conceitual, com cada música tendo sua história, mas contribuindo para uma narrativa maior, que constrói a própria estrutura através dos "espetáculos" do circo, ler as letras durante a execução ajuda muito em sua compreensão, tenha em vista que as informações nessa coluna são interpretações do autor, e parte da magia do álbum conceitual é essa, o debate e as várias interpretações!

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