16 julho, 2020

#04 - A Essência dos Álbuns Conceituais: Rebirth, Angra

Apocalipse. Um tema que mexe com nosso imaginário, despertando sentimento de temor e curiosidade: será que presenciaremos o fim da humanidade? Como serão os últimos dias de nossa raça? Uma das perguntas que brotam consequentes disso é: há quem sobreviverá à um possível fim dos tempos? Inspirados por isso, logo após a virada do milênio, uma banda viveu seu próprio apocalipse, e apresentou, em seu primeiro disco após ser apontada como acabada por muitos, uma nova faceta, repaginada e mergulhando no que seria considerada, por muitos fãs, a sua melhor fase. Estamos falando de Rebirth, álbum do Angra.


Antes de lançar o disco recheado de novos clássicos, o Angra sofreu um tremendo golpe em suas estruturas: já despontando entre os gigantes do Metal brasileiro, foi duramente desfalcado com as súbitas saídas de André Matos, Luis Mariutti e Ricardo Confessori, vocalista, baixista e baterista, respectivamente. Mas, a história da banda muitos conhecem por ser amplamente contada e escrita. O fato é: para Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt, guitarristas remanescentes, aquele foi o juízo final para o Angra, e estava na hora de provarem que existia vida após a morte, ou, propriamente dizendo: o renascimento.

À primeira vista, Rebirth trata apenas do renascimento do Angra, mas, indo mais a fundo na compreensão do disco, percebe-se uma narrativa ocorrendo em paralelo ao desenvolver do disco. Em uma interpretação fria, pode-se não compreender a lógica do andamento de alguma narrativa, então, basta-se analisar o disco de seu fim, para seu começo, pois é justamente na faixa “In Excelsis”, instrumental que abre o álbum, que a história alcança seu “ápice”, sua “elevação”, e sua aparente conclusão. Então, para acompanhar esse passeio pelo universo construído inteiramente por Rafael Bittencourt, que tal dar um play de trás para frente no seu Rebirth aí em seu “toca discos”? Ok, pode ser o Spotify, tudo bem, sem problemas.

Arranjada sobre a composição de Chopin, Prelude Op.28 Nº 20 em C menor, “Visions Prelude” é melancólica e trágica em seu andamento, ao narrar, literalmente, uma visão do que estaria por vir:

Vento frio, triste luar
Escuras nuvens no céu
A tempestade encerra o luto
Uivando pela noite
Visão da terra
Após o horrendo fim

Ao mesmo tempo, anuncia em seu refrão, que a humanidade construiria novamente do princípio, mas sendo despertado antes de revelar exatamente o que. O nome da faixa é uma pista para quem busca compreender o conceito de Rebirth, já que seu nome induz a sua interpretação como o prelúdio, antecedendo o início da narrativa apocalíptica, que começa em “Running Alone”. Aqui, entramos no ponto de vista de um soldado, que pode ser o mesmo que teve as visões descritas anteriormente. Cabe atentar ao trecho cantado em coro no início da música:

Quando o bravo lutou
Na terra da liberdade para os homens
Agora os sinos da esperança estão soando
Anjos choram novamente

Um bom fã de Angra nota facilmente a referência ao disco de estréia da banda, Angels Cry, mas também fazendo alusão direta à letra da faixa-título, onde tratamos de incertezas, desilusões e desespero de estar perdido. O soldado, que empresta seus pensamentos à letra de “Running Alone”, depara-se na mesma situação, pois prestes a adentrar em combate, tem o pressentimento de que estar ali não é mais sensato. Ao ver que a humanidade está desorientada, sem rumo, com “velhos amigos sendo inimigos” -lembra do paralelo com a história da banda? Ele, que revela ser o capitão em comando, é apontado como um fugitivo, que abandonou sua tropa antes do amanhecer. Neste momento, após tanto se questionar e ter questionado os demais ao seu lado anteriormente, encontra-se sozinho, faceando o mundo desolado que o abraça, solitário, acompanhado apenas de suas dúvidas e suas visões.

Neste momento, cabe enxergar que Rafael Bittencourt de fato se colocou no lugar do personagem, mesclando seus pensamentos à época aos do soldado em fuga, que ao mesmo tempo fugia de suas perguntas, corria para encontrar respostas, mas rumava ao que parecia um inevitável cataclisma, arriscando-se contra a tempestade.

A tensa e pesada “Judgment Day” passa por dentro do conflito psicológico do protagonista, que agora encontra-se com o remorso de ter abandonado a guerra, com sangue derramado sobre suas mãos. Vale, mais uma vez, atentar os olhos sobre referência em um trecho específico da primeira metade da música:

Mesmo o corajoso não negará
O mal avisa de novo
E sua consciência não está segura
Levando você à loucura

Bittencourt novamente brinca com músicas do passado da banda, referenciando “Evil Warning”, do mesmo disco já mencionado de 1991. E mais uma vez, não é em vão: o aviso maligno de outrora é o mesmo de agora, pois trata de um incentivo de arriscar, ousar, se atrever, pois essa pode ser a última oportunidade para quem está prestes a morrer à todos os instantes.

Mais uma vez, a pessoa que recebe o aviso maligno está na beira de seu precipício, e talvez, pular nele é a única saída, e então, é necessário o salto de fé para então conhecer seu maior ato de liberdade. E após romper suas correntes com seu passado, o protagonista está pronto para renascer, reerguer-se em um mundo diferente do que estava habituado.

Mais sagaz, porém mais velho agora
Um líder, um aprendiz
Um legítimo iniciante
Um hóspede de loucura
Tão lúcido na selva
Um ajudante, um pecador

Em “Rebirth”, o protagonista vê a si mesmo nas extremidades de sua essência: antes um líder, mas agora, pronto para aprender a ver o mundo de uma nova perspectiva. Ao mesmo tempo que lida com sua insanidade comprometida por tudo que vivenciou, vê-se como capaz de estar à frente de um novo e primitivo mundo. Ele reflete, ao longo de “Rebirth”, sobre seus sentimentos, e sua certeza apoteótica de que reencontrou suas certezas, sua esperança e orgulho, provando estar completamente renascido. Não à toa, uma música com esse teor sintetizaria o sentimento pleno de Rafael Bittencourt ao recolocar o Angra no páreo, ainda mais maduro e experiente, para os novos desafios que teria pela frente.

Com um ritmo tipicamente brasileiro, somos introduzidos às guerras profanas, “Unholy Wars”, que faz de início uma reflexão à relação de colônia x colonizador, elevando a crítica da faixa para um patamar religioso e moral. A guerra, premeditada e que teve participação de nosso primeiro protagonista, deixa suas marcas letais, mas que sempre foram previstas pela humanidade, que enfim sofreu as consequências fatais de suas atitudes. No entanto, a faixa traz no seu eu-lírico alguém que pede perdão a Deus, por saber que as guerras santas não eram nada sagradas.

Perdoe-nos, nosso pai
Por nós termos pecado
Cegos pelo orgulho
Nós não sabemos o que fazer
Teu reino será feito
Por guerras santas

A guerra rompeu fronteiras, realocou nações, promoveu a vontade da fé de alguns povos e exterminou culturas e tradições de outros. Seja na vida real ou na crítica de “Unholy Wars”. E tal como na realidade, “Heroes of Sand” trata de desmistificar a imagem do herói perfeito, divino e imortal. A música faz uma ode à todos os heróis caídos na grande guerra que ocorre no plano de fundo da construção histórica do álbum.

Todos os heróis caem
Derramando seu sangue na terra
Sonhando que, de alguma forma
As divindades agora se erguerão
Heróis caem
Com seus corações em suas mãos
Construindo seus castelos na areia

Ao mesmo tempo, o refrão reforça que os heróis caídos são necessários para que haja a construção, são sacrifícios necessários para que exista evolução e recomeço. É dessa forma que os soldados são enxergados em uma guerra: como meras peças. Os verdadeiros heróis, por fim, vistos apenas como os grãos de areia para a base dos novos castelos à serem erguidos.

Em uma música de muita dualidade, “Acid Rain” mostra o protagonista inicial de volta ao centro da história. Aqui, entendemos que existem dois momentos cronológicos na música.

Quando o mundo teve um destino trágico
Estávamos drenando o mar envenenado
Como eram tristes as cenas!
Somente orações estarão adiante

O primeiro verso apresenta a sentença final no passado, dando a entender que ainda haverá esperança através da oração. Pouco depois, encontramos duas linhas narrativas distintas:

Apenas alguns de nós sobrevivemos
Pelo menos uma mulher e um homem decentes

Bem acordado! Estou eu só neste lugar?
Alguém me ouve? Minha única esperança!

Em uma mesma estrofe, mas com nítida mudança de arranjo, percebemos que a sociedade conta a história dos que sobreviveram à guerra, enquanto o soldado parece perdido, sem ter sido encontrado e ainda buscando amparo, principalmente, após ser acometido pela punitiva chuva ácida, que queima seus olhos, mas, ainda assim, jamais tira a sua fé. Isso fica nítido pois na segunda repetição do verso em que menciona o destino trágico do mundo, há uma sutil mudança na última frase:

Apenas orações estiveram adiante

Aqui, nota-se uma alteração no espaço-tempo da história, e nesse momento, tudo que o soldado pede é misericórdia, mas ao mesmo tempo, ouve de seus pensamentos palavras que o mantém esperançoso, com pensamentos abertos e leves para que possam ir de encontro ao Sol, que sim, nasce para o solitário sobrevivente, que vê que não está só agora.

Em "Millennium Sun", encontra uma sociedade ainda necessitada de ordem, de paz, pois encontra os mesmos defeitos do passado mais uma vez.

Alienação da população
Perdendo toda a afeição
Chamando a esperança do paraíso
Para olhar por mim
Sem sorte
Estagnação iminente
Controlado à distância
Pela TV, de novo

O povo luta contra seus vícios, contra a maldade passiva do ser humano, e ao mesmo tempo, clama por mudanças, provindas da tão sonhada “virada do milênio”. É então que rogam para que o “sol milenar mostre-os o caminho”, para mostrar que, de fato, “o futuro começou”. E então, vejo que aqui interpreta-se que o soldado, o sobrevivente solitário, revela-se como aquele que eles clamavam, pois ergue-se com seu espírito renovado de liderança, banhado de uma visão pura e clara de como deve ser o novo mundo, pois sua visão mundana já foi lavada pela chuva ácida e, mesmo cego, enxerga mais que todos os demais. É através dele, que desperta-se a tão sonhada “Nova Era”.

Recheado de otimismo, confiante, e certo de que “os anjos trarão o nascer do Sol novamente”, tal como as criaturas divinas irão se reerguer, dando fim a toda dor e mentira, dando um novo significado para a vida.

Nova Era é a passagem para a sua mente
E que para sempre você possa achar tempos melhores

No entanto, não vejo que esta nova era trata-se exatamente de uma reconstrução da Terra, mas sim, como um momento em que os “sobreviventes” puderam, enfim, encontrar a paz coletiva no único lugar em que podem estar desprendidos dos vícios carnais e dos males que estão sempre tão presentes em nossa espécie: o paraíso, o pós-morte, a vida eterna.

Assim, todo esta sociedade que aceitou seguir seu “sol milenar” para viver a verdadeira “nova era”, enfim encontra sua “elevação” (“In Excelsis”, em latim), faixa que em menos de um minuto consegue transmitir a sensação de estarmos, de fato, viajando da Terra em escombros, debaixo de densas nuvens carregadas, até o mais puro e verdadeiro paraíso, que repousa sereno sobre as tempestades nocivas que, de fato, destruíram a Terra na narrativa de Rebirth, que, no fim, é sobre a humanidade buscando sua redenção no processo de aceitação pós-morte e reconhecendo seu papel agora no mundo espiritual.


Essa interpretação não é canônica, no entanto, e trata-se de minha opinião após muito ouvir, ler e estudar este disco, tal como seu compositor. Rafael Bittencourt é um grande apreciador de diversas mitologias, filosofias e ideologias espirituais, e dessa forma, cabe sempre analisar de forma que suas letras são sempre críticas, mas carregadas de espiritualidade e sentimento. Não são fáceis de interpretar, mas, para fãs de compositores como este, é um desafio prazeroso e inspirador.

TRACKLIST
01) In Excelsis
02) Nova Era
03) Millenium Sun
04) Acid Rain
05) Heroes of Sand
06) Unholy Wars
07) Rebirth
08) Judgement Day
09) Running Alone
10) Visions Prelude

FORMAÇÃO
Edu Falaschi - vocal
Rafael Bittencourt - guitarra
Kiko Loureiro - guitarra
Felipe Andreoli - baixo
Aquiles Priester - bateria